Trabalhadores da orla

garapa mural

Oficina do coletivo Garapa. Com Bruna Quevedo e Jéssica Carvalho.

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Simultâneas

A proposta era que todos os dias durante uma semana, às seis da tarde, elas batessem uma foto do que estavam fazendo no momento. O resultado foi esse esboço aí debaixo, uma primeira tentativa de produzir algo com aquela brisa de que o mundo é simultâneo.

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troll

Andando pelo bairro. encontro. olhares que se cruzam. eu conheço ela, ela não me conhece. eu sei a sua história, ela não sabe a minha. mas a gente se encontra na mesma rua. e volto há 3 anos, quando vi o documentário da sua vida em uma aula. Ela ali, aberta pro mundo, invejo sua habilidade fazer da rua a sua casa. um despojamento que desejo. coração aberto. cada uma fugindo do mundo a sua maneira.

O passado pendente nas fossas comuns do franquismo

Uma vez quando trabalhava no hotel ano passado, enquanto montava a mesa do café da manhã para o dia seguinte, tive a oportunidade de ouvir um breve e forte relato relacionado aos tempos negros durante guerra civil espanhola. Era o último dia da hóspede francesa, que escrevia postais no terraço para seus familiares andaluzes. Perguntei aonde ela havia aprendido a falar castelhano tão bem, quase nada de sotaque francês, ela respondeu que seus pais eram de Andalucía e emendou a história: quando a repressão franquista apertou, seu pai, que morava em Barcelona, e a mulher, que ainda estava no sul do país, planejaram fugir para França, como e com muitos outros, a pé. Ele foi. Ela, grávida do primeiro filho e que conforme o plano cruzaria a fronteira dias depois, foi impedida de passar, os limites já estavam fechados. E assim ficaram por doze anos, até se encontrarem, marido, mulher e filho, na França novamente.

Saí de lá esse dia tentando resgatar as poucas lembranças perdidas na cabeça sobre como o período afetou a vida do meu avô, que viveu em Barcelona até 1946 e que, como os pais da hóspede francesa, nunca mais voltou. Aos 19 anos, decidiu marcharse para a África, onde viveu por quatro anos, e depois para a sua instalação definitiva no Brasil. Infelizmente, ele faleceu antes de que qualquer curiosidade mais profunda sobre Espanha e raízes tenha surgido da minha parte. Uma pena. O pouco que sei, ouvi das minhas tias, que, assim como muitos, ele teve uma infância atordoada pelo pavor das bombas e da fome  e que pesadelos dessa época o acompanharam até o fim da vida, num sofrimento calado junto com o catalão, que mal me recordo ouvir ele pronunciar, exceto por uma ou outra musiquinha folclórica que cantava.

No começo desse mês, o sentimento de resgatar as memórias de guerra do meu avô voltou. Encontrei com o tema em Madrid, ao entrevistar o espanhol que organizou a primeira  associação de familiares de vítimas do franquismo para abrir as valas comuns e identificar os corpos, numa sufocada busca pelo encerramento de um passado pendente.  O principal desafio que enfrentam, além da falta de financiamento, é o tempo, já que as grandes provas são as pessoas que viram a repressão e ainda estão vivas.

Lembrei do meu pouco citado bisavô, republicano, que morreu jovem, aparentemente de um ataque no coração, penso o que de fato terá acontecido com ele… e que para começar a desenrolar um pouco esse fio condutor antepassado, precisarei de respostas que estão no Brasil.

O vídeo abaixo é o resultado dessa entrevista, mostra como funciona o trabalho das associações que têm se proliferado na Espanha, e integra um especial sobre crimes do franquismo, assinado pelo repórter Rafael Duque.